AUGUSTO DOS ANJOS E EU

Somente aos 17 anos que conheci a obra do grande poeta brasileiro Augusto
dos Anjos,quando eu cursava o 3º ano do segundo grau no Colégio Concórdia em Canoas RS. Foi encantamento a primeira vista.

O primeiro soneto, apresentado nas aulas de literatura brasileira pela professora Ilka foi o genial “Vandalismo”. Decorei-o e sei recitá-lo até hoje.

Mas tive mesmo grande surpresa foi quando um bom tempo depois li o soneto “Versos Íntimos”. Digo surpresa porque achei uma grande coincidência e semelhança com uma letra de música que eu havia escrito aos 15 ou 16 anos. Bem antes de conhecer a obra do poeta.

A música se chamava “Observância Interna” e fazia parte do repertório da banda que havíamos formado havia alguns anos chamada “Apocalipse”. Com grande influência pinkfloydiana a banda fazia rock progressivo com letras em português.

A que atribuo essa coincidência de palavras e idéias entre os dois textos? Acho que não é nada de outra vida não. Suponho que seja simplesmente uma forte coincidência. Ou como muitos acreditam, ‘captamos’ a mesma impressão sobre um determinado tema.

Passo a citar a semelhança, bem como uma breve biografia de Augusto dos Anjos:

Antes, o trecho da minha letra:

Observância Interna (refrão)

Eis o homem, criatura da lama

Eis a mente engana-se

Eis a fera que reverte-se

Em eterna chama

A seguir, o soneto de Augusto dos Anjos (em azul a
coincidência)…

Versos Íntimos Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última
quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira
inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra
miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser
fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a
véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil
que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
nasceu no Engenho Pau d’Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu
com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu
Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma
família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX,
à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes
usinas. Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em
1907. Ali teve contato com o trabalho “A Poesia Científica”, do professor
Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português.
Casou-se, em 04 de julho de 1910, com Ester Fialho. Nesse ano, em conseqüência
de desentendimento com o governador, é afastado do cargo de professor do Liceu
Paraibano. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou
geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional,
depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Em 1911,
morre prematuramente seu primeiro filho. Em fins de 1913 mudou-se para
Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas
particulares. Seu único livro, “
Eu“, foi publicado em 1912. Surgido em
momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem
representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por
alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer
pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne
e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris
Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.

Cético em relação às possibilidades do amor (“Não sou capaz de
amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me”),
Augusto
dos Anjos
fez da obsessão com o próprio “eu” o centro do seu pensamento.
Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo
e angústia em seu livro patético (“Ai! Um urubu pousou na minha sorte”). A vida
e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa,
reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de
leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe
de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo (“Tome, doutor, essa
tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa”). Ao asco de volúpia e à
inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer
outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da
alma (“Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros
imortais”).

A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas
preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área
científica para fazer do “
Eu” — desde 1919 constantemente reeditado como
Eu e outras poesias” — um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor
da forma. Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do
país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um
fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos
de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.

O poema acima foi incluído no livro “Os Cem Melhores
Poemas Brasileiros do Século“, organizado por Ítalo Moriconi para a Editora
Objetiva – Rio de Janeiro, 2001, pág. 61.