Bakunin, os interesses do povo e o discurso de Roriz

Encontrei por acaso esta frase do anarquista russo Mikhail Bakunin, que remete a alguma reflexão sobre nosso momento político, onde aqueles que deveriam representar os interesses populares usam o poder que lhes foi outorgado pelo voto para satisfazerem-se a si próprios:

“Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”

Bakunin atribui a própria essência da natureza humana este egoísmo que sufoca gradualmente qualquer idealismo a medida que vai se habituando ao exercício do poder.

Num outro artigo, intitulado Sufrágio Universal onde o anarquista russo reflete sobre o poder do voto outorgado ao povo e que também termina por ser distorcido inevitavelmente ele afirma:

“Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal fosse a garantia
de liberdade dos povos…

… Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim
asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados.
Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a
liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles
puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos
estabelecidos.

Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do
poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados
e corruptos. Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os
poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição
popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não
produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo
e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a
verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas
coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de
movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses
econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política
ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da
liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes,
sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por
estarem numa posição excepcional.

Por mais democráticos que sejam seus sentimentos e suas intenções, atingida
uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma forma que um
professor vê seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De
um lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela
posição de superioridade que decorre da superioridade do professor, exercite
ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de
dominação.

Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é
dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam,
enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que
dominam. Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no
mundo. Isto é, o que também explica como e porque os democratas mais
radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais
cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente
consideradas atos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a
mudança de posição e, portanto, de perspectiva.”

Apesar desta lúcida constatação de Bakunin, ainda considero o regime democrático a melhor solução para os anseios do povo. O que falta é o refinamento deste sistema de modo que os mecanismos que o sustentem sejam de fato a garantia de que o desejo da maioria esteja eficientemente representado.
Chegamos ao ponto de reconhecer na lei algo que é aplicado para a maioria, mas que em situações especiais terá sua aplicação amenizada na medida do poder financeiro ou político que o indivíduo exerça.
Reverter este quadro é um processo lento que deve empreender esforços de toda a sociedade a começar pela família e a retomada de sua importância na preparação do indivíduo para convívio na coletividade. A formação escolar deverá prover muito mais do que conhecimento, mas educação política, ética e sobretudo espiritual, remetendo a valores que trascendam a próprio vida do homem.
Talvez assim um dia não veremos mais cenas teatrais como a que protagonizou Roriz esta semana com seus apelos divinos e lágrimas de crocodilo.

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