Dureza em Tramanda Beach (por Ângelo Fernando da Cruz – Nando)

Mil novecentos e oitenta e alguma coisa… eu não lembro bem qual foi o ano, mas lembro que era uma sexta feira, na década de 80, no mês de janeiro, um verão com um calor “senegalês”. Eu estava na baía (em casa) curtindo uma sessão da tarde e ouvindo um som do Black Sabbath (sim é possível ver TV e curtir um som ao mesmo tempo… bem, pelo menos é possível quando se tem 16 ou 17 anos), e me preparando para, mais tarde, pegar uma piscina no Niterói, já que este era o programa natural da galera nas quentes tardes de verão (e até nas tardes de primavera, para tomar banho com girinos… mas esta é uma outra história). Bem, neste marasmo de tarde, esperando baixar o rango para não dar uma “congestão” na piscina, eis que ouço algumas vozes gritando na frente da minha casa me chamando… eram o Boca e o Daison, e eles estavam carregando pesadas mochilas!

– Ai meu… qualé que é?
– E aí perereca (é, este era (é) o meu apelido “PERERECA”)? Falou o Daison.
– E aí meu? O que tu ta fazendo? Perguntou o Boca.
– Nada – respondi. – Tô de bobeira curtindo um som e vendo TV, esperando baixar o rango para dar uma banda na piscina.
– Ô meu, vamos pra praia? Perguntou o Daison
– Praia?? Perguntei meio encabritado do convite, achando que eles estavam de sacanagem, pois naquela época a gente era tudo “durango kid”, ninguém tinha grana nem para toma um refri, imagina ir para praia. – Mas qual praia? Lá para casa do teu vô em Capão? Perguntei, pois o vô deles (para quem não sabe o Daison e Boca são primos) tinha uma casa em Capão da Canoa, e eu pensei que o convite poderia ser para ir para a casa do vô deles.

– Não. Respondeu o Boca. – A gente vai pra Tramandaí de barraca, vamos passar o fim de semana lá.

Aí que eu fiquei mais encucado, mas o convite era tentador… – Báh cara eu tô tri a fim, só que eu tô sem “um puto no bolso”, não tenho grana nem pra fazer um rango, e o meu pai já disse que este fim de semana ele tá sem dinheiro e não vai rolar grana de mesada.

– Não dá nada Perereca! Emendou o Daison. – A gente tá com grana e segura a tua!

Na hora eu estranhei aquela benevolência… imagina ir para a praia e ainda com tudo pago pelos camaradas. Era bom demais para ser verdade

– Tu leva a tua barraca que a gente segura a tua. Disparou o Boca.

A proposta era tentadora e sem pensar muito concordei.

Antes de sairmos ainda conversei com meu pai e após um grande apelo ele me deu uma graninha, suficiente para pagar a passagem de ida e volta, pois devido ao tamanho da barraca era impossível pedir carona na free way. Também procurei confirmar com o Boca e o Daison se eles realmentes tinham grana para seguras as nossas despesas durante o fim de semana.

– Cara vocês tem mesmo grana pra segurar a nossa durante o fim de semana?
– Báh perereca não esquenta, eu o Alemão (Daison) temos dinheiro, e a gente ainda ta levando um monte de rango… fica frio que não dá nada, a gente vai curtir pra caralho e ainda vamos mata umas “mina” na barraca! Afirmou o Boca.
– Então tá, porque eu não to a fim de passar fome o fim de semana inteiro.
– Cara… já disse… deixa tudo com nós que a gente segura todas. Insistiu o Daison.

E assim, com a certeza de tudo estava tranqüilo (pelo menos eu acreditava nisto), e que havia grana suficiente para garantir a nossa estada na praia durante o fim de semana, partimos para a rodoviária para pegar o ônibus para o litoral .

Assim que chegamos na rodoviária de Tramandaí, lá pelas 17:00, já providenciamos a compra das passagens de volta para segunda feira de manhã, pois naquela época, assim como hoje, o retorno do litoral é sempre complicado, e quem não se adianta comprando a passagem com antecedência, fica sem vaga nos ônibus que retornam para a capital no início da semana..

Dureza em Tramanda Beach (parte 3)
Logo que saímos da rodoviária, que naquela época era bem no centro de Tramandaí, carregando a imensa barraca (o Daison e o Boca levavam a barraca e eu levava os ferros) e mais as pesadas mochilas, eu já estava meio eufórico, louco para nos instalarmos de uma vez, e pegar um banho de mar antes que anoitecesse, pois o fim de semana prometia!
Com um sorriso no rosto e a empolgação pelo fim semana, me lembrei de perguntar para os dois onde é que nós íamos ficar acampados.
– Pra onde a gente vai agora? Nós vamos para um camping ou para casa de algum camarada? Perguntei.
Neste instante o Daison e o Boca se olharam e o sorriso desapareceu de suas faces.
– Pois é… Disse o Boca
– Como assim pois é? Perguntei sem entender muito .
– É… Disse o Daison. – A gente tem que arrumar um lugar…
– Arrumar um lugar? Perguntei já sentindo um clima de “pintou merda”. – Mas vocês já não tem um lugar pra gente ficar??
– A gente tinha… quer dizer… a gente tinha planejado de ficar num camping, mas como tivemos que pagar a passagem, a grana acabou! Disse o Daison
– Como assim acabou?? Quer dizer que a grana que vocês tinham só dava para pagar a passagem?? Questionei já totalmente indignado.
– Na verdade essa grana não era para pagar a passagem, a gente pensou em pegar carona e deixar esta grana para pagar o camping… mas tu insistiu em vir de ônibus. Justificou o Boca.
– Insistiu o caralho!! Falei já puto da cara. – Eu não insisti porra nenhuma, a gente pegou o ônibus porque não dava pra pedir carona com esta barraca nas costas! Qual é o carro que ia parar para dar carona para 3 cabeludos carregando um trombolho destes??
– É mas com isto foi a grana toda… agora a gente vai ter que dar um jeito de arrumar um lugar para montar esta barraca. Disse o Boca.
– E o rango?? O que a gente vai comer nestes três dias?? Perguntei já prevendo que a história do rango trazido pelo Daison também era uma furada.
– Fica frio que o Daison trouxe rango. Falou tranquilamente o Boca.
– Tá Alemão, que rango tu trouxe?? Perguntei
– Eu trouxe uma lata de pêssego em calda, uma lata de sardinha e duas latas de salsicha.
– O que?? Este é rango que tu trouxe?? A gente vai morrer de fome até segunda, sem nada pra comer e sem grana! (ok! Ninguém morre de fome em 3 dias, mas naquele momento a situação parecia desesperadora).
– Ah para Perereca! A gente não veio pra praia pra comer, a gente veio fazer festa e pegar umas minas… fica frio e relaxa. Falou o Boca como se tudo estivesse sob controle.
– E como que a gente vai pega umas minas sem grana nem pra um refri?? Questionei.
– A gente dá um desdobre (passa a conversa) nelas, e depois arrasta para barraca e mata! Disse o Daison empolgado.
– Ta legal! Falei já me acostumando com a idéia de passar o fim de semana sem comer nada, mas com boas perspectivas de se dar bem com o mulherio na praia. – Mas onde a gente vai montar a barraca?
– Pois é… Disse o boca novamente

Dureza em Tramanda Beach (parte 4)

Por algum tempo ninguém falou nada, e nós continuamos caminhando sem rumo pelo centro de Tramandaí, com o barracão e as mochilas nas costas. Após mais algum tempo, e com o sol já começando a se por, o Boca parou de repente, com um brilho nos olhos e com ar de satisfação de quem consegui resolver um grande problema, e exclamou:
– Já sei! Vamos pedir para o padre para montar a barraca no pátio da igreja! É claro que ele não vai se negar, imagina, o cara é padre pô… ele tem obrigação de fazer o bem para o próximo, além do mais tu e o pereca estudam em colégio de freira (no caso o Colégio são Paulo em Niterói, que na época era administrado pela irmãs)!

– Grande idéia Boca! É claro que o padre não vai se negar em deixar a gente ficar só três dias no pátio da igreja. Concordou o Daison, com a certeza de que nossos problemas estavam resolvidos.
“Idéia de girino” pensei, imagina se o padre vai deixar a gente montar barraca no pátio da igreja. Mas naquela altura do campeonato qualquer tentativa era valida, portanto não me opus a idéia e acompanhei os amigos na visita ao padre.

A igreja em questão era a igreja central de Tramandaí, que fica na rua da Igreja, principal avenida do município, bem no centro de Tramandaí. Chegando lá fomos direto a sacristia que ficava em uma porta lateral da igreja, e assim que batemos na porta o padre em pessoa veio nos atender (como eu sei que era o padre? O cidadão tinha cara de padre ora!)
– Boa noite padre! Falou o Boca
– Boa noite! Respondeu o padre meio assustado com aquelas três figuras cabeludas carregando um enorme saco roxo e cinza nas costas (estas eram as cores do saco da barraca), além de pesadas mochilas.
– Sabe o que é padre? Começou o Boca. – É que a gente é lá de Canoas, e veio passar o fim de semana aqui na praia… o problema é que a gente teve que vir de ônibus e acabou ficando sem grana para pagar um camping… aí a gente pensou se talvez o senhor deixasse a gente armar a barraca aqui no pátio da igreja… é só pra dormir sabe? E na segunda de manhã a gente sai fora.

Os olhos do padre se arregalaram incrédulos com a proposta, em um misto de espanto com indignação. Neste momento, para dar uma força eu emendei:
– É padre… a gente estuda em colégio de freira, o Colégio São Paulo lá em Niterói, saca? E daí a gente pensou se o senhor poderia dar uma força aí pra nós…
Eu mal terminei de expor a minha argumentação e a fisionomia do padre passou do ar de espanto para fúria… e enfurecido passou a esbravejar:
– Fora daqui seus vagabundos! O que vocês estão pensando? Isto aqui é uma igreja, sumam daqui ou eu chamo a polícia! Mas que desaforo de vocês!
– Ma… ma… masss…, padre… Tentou argumentar o Daison, mas não tinha mais jeito, o padre já estava a ponto de partir para a porrada em cima da gente… o negócio foi pegar o barracão e as mochilas e bater em retirada com o rabo no meio das pernas. Há quase uma quadra de distância da igreja ainda dava para ouvir o padre esbravejando: – Não apareçam mais aqui seus vagabundos!

Após esta visita mal sucedida a igreja, continuávamos na estaca zero, e com a dúvida cruel: Onde ficar? Uma coisa era certa voltar para a casa era impossível, pois as passagens de volta eram para segunda feira, e dormir na areia ainda era considerado um plano B. Mas eis que o Boca tem uma nova grande idéia:
– Já sei! Vamos falar com o prefeito e pedir para ficar no pátio da prefeitura.
– Aí grande idéia Boca! Concordei achando que desta vez seria mais fácil.
– Na prefeitura eles vão ter obrigação de deixar a gente acampar.

Partimos então em direção a Prefeitura, que é bem perto da igreja, na mesma avenida. Chegando lá fomos recebidos por um segurança do prédio, que ouviu em silêncio o nosso problema, após expormos o nosso drama o cara deu uma risada sarcástica e botou a gente pra fora da Prefeitura. Acho que só não apanhamos porque o cara deve ter achado aquela história toda muito surrealista para ser verdade.

Dureza em Tramanda Beach (parte 5)
Após mais esta tentativa frustrada, a nossa esperança de ter um lugar descente para dormir já estava se dissipando, e a alternativa de montar a barraca na areia da praia já era considerada a única solução.
Já eram mais ou menos umas 21:00, e nós estávamos descansando um pouco, sentados em um banco no calçadão de Tramandaí, discutindo qual seria o melhor local para montar a barraca na praia, quando vislumbramos uma figura conhecida se aproximando com um sorriso no rosto.
A figura em questão pesava uns cento e poucos quilos, cabelo cumprido e encrespado (como se não visse água há algum tempo), vestindo uma camiseta surrada com uma estampa em preto e branco da Janis Joplin, um jeans que parecia ter uns vinte anos de idade com o fundilho na altura do joelho, e um tênis que era impossível identificar a marca e a cor… mas o que mais chamava a atenção era a face deste nosso amigo, pois apesar de estar se dirigindo em nossa direção e já estar acenando euforicamente para nós, os olhos dele estavam direcionados para o lado oposto. Bem, está figuraça era um amigo nosso conhecido com “Brian”, cujo nome verdadeiro era Rogério, o codinome Brian era uma alusão a uma “certa semelhança”com o guitarrista Brian May do grupo Queen. Na verdade a semelhança em questão era próxima a uma caricatura, ou como diziam, “o negativo do Brian May”. O Brian era completamente vesgo, e por isso quando ele falava com alguém os olhos se direcionavam para o lado oposto.
O Brian era gente fina, e quando a gente viu ele se aproximando nossas esperanças se renovaram, talvez a gente conseguisse um lugar para ficar, talvez um pátio, uma barraca, sei lá qualquer lugar que fosse possível dormir.
– E aí loucos? Gritou o Brian, quando se aproximava.
– E aí Brian? Respondemos quase em coro.
– O que vocês tão fazendo perdidos aí seus loucos? Perguntou o Brian.
– A gente veio passar o fim de semana aqui em Tramanda, mas deu problema… a gente tá meio sem grana e não temos lugar para ficar. Explicou o Daison.
– Tu sabe de alguma barbada aí, onde a gente pode armar a barraca e ficar durante o fim semana? Perguntei.
– Pô galera… não dá nada… vocês podem montar a barraca lá no pátio da minha baía! Disse o Brian.
– Legal Brian… eu não sabia que tu tinha casa aqui em Tramandaí. Falou o Boca.
– E não tenho mesmo. Respondeu o Brian. – Eu tenho uns camaradas aí que são pescadores, e um deles me emprestou a baía, se vocês quiserem dá pra montar a barraca lá no pátio.
– Báh, só! Valeu veio, vamo nessa! Se adiantou o Daison, já levantando e botando o barracão nas costas.
– É longe a tua baía Brian? Perguntei.
– Não, é tri pertinho… dá pra ir na pernada.
– Então vamos! Emendou o Boca já ajudando o Daison a carregar o barracão.
Com a esperança renovada, e com a certeza de ficarmos bem instalados, seguimos com o Brian em direção a sua baía.

Dureza em Tramanda Beach (parte 6)
Caminhamos por aproximadamente umas duas horas… passamos por todo o centro de Tramandaí, atravessamos alguns bairros… a última hora de caminhada foi dentro de um banhado, e a única luz era a da lua e das estrelas, e dos vagalumes… diversos sapos nos acompanhavam em um saltitante cortejo. Após esta longa caminhada, totalmente exaustos, chegamos na baía do Brian. Na verdade não dava para chamar de baía o local onde o Brian estava alojado.
O local em questão, localizado no meio do nada, esquina com lugar nenhum, era um casebre (na verdade chamar aquilo de casebre era um elogio), sem luz, água, banheiro, ou qualquer outra infra-estrutura minimante aceitável para a permanência de um ser humano. O “pátio” onde nós poderíamos montar a barraca era um banhado com aproximadamente 5cm de água e mato. Dentro do casebre havia apenas uma cama (ou algo parecido), e alguns utensílios que vagamente lembravam panelas.
Eu, o Daison e o Boca nos olhamos, e sem dizer nada, sabíamos exatamente o que o outro estava pensando: “Fudeu! Nem como última alternativa dá para ficar aqui”.
Antes de agradecermos, e elaborarmos um desculpa para recusar a gentil oferta de hospedagem o Brian ainda disparou: – Aí louco, só não dá pra fazer zoeira porque a baía não é minha, falou?
Agradecemos, inventamos uma história qualquer, e nos despedimos do Brian, que ficou bastante desapontado com a nossa recusa em se instalar no pátio da sua casa.
O Brian ficou, e nós voltamos para o centro de Tramandaí, já aceitando definitivamente a única alternativa possível de montar a barraca na areia da praia. Mais duas horas de volta e a madrugada já ia longe. Nós estávamos exaustos de carregar o barracão durante boa parte do dia, e naquele momento a única coisa que queríamos era deitar e dormir.
Quando já estávamos chegando de volta ao centro eu me lembrei que tinha um camping em Imbé (bem perto da ponte que separa os dois municípios) com uma cerca bem baixinha, e que aquela hora da noite provavelmente tinha pouca vigilância. Então eu dei uma idéia para os parceiros:
– Cara! Tem um camping em Imbé, com uma cerca bem baixa… o que vocês acham da gente pular o muro e montar a barraca na “manha”… os caras nem vão notar… e ai gente fica bem “mucosado” (escondido, desapercebido), e se os caras descobrirem o máximo que eles vão fazer é mandar a gente sair fora.
– Pô Perereca! Porque tu não falou isto antes? Questionou o Boca.
– É que eu só lembrei agora… respondi.
– Pô Pereça! Tu é foda… a gente aqui se fudendo, e taí a solução… vamos nessa. Disparou o Daison.

Dureza em Tramanda Beach (parte 7)
Realmente o camping tinha um murinho bem baixinho, e estava lotado de barracas, e o melhor de tudo é que não tinha ninguém cuidando da segurança do lugar, desta forma foi fácil pular o murinho, e achar um lugar bem mucosado, perto de uma barraca que parecia de uma família, pois caso alguém do camping aparecesse seria mais fácil dar um desdobre e dizer que a gente era daquela família. Tudo acabou saindo do jeito planejado, armamos a nossa barraca com rapidez e discrição para ninguém perceber, e nos tocamos para dentro para dormir, pois a aquela altura nós estávamos exaustos e só queríamos saber de uma boa noite de sono.
No dia seguinte acordamos já perto do meio dia, com fome e loucos de vontade de começar a curtir o fim de semana. Antes de irmos tomar um banho de mar, fizemos uma reunião para decidir como seriam consumidos os nossos mantimentos (uma lata de pêssego em calda, uma lata de sardinha e duas latas de salsicha), decidimos que deixaríamos para comer somente a noite, antes de dar uma banda para procurar umas minas, e sabíamos que esta seria a única refeição a ser feita durante todo o fim de semana. Nesta reunião um outro importante assunto veio a tona: Perguntei como é que a gente ia fazer festa na noite, com fome e totalmente de cara, sem beber nada? O Boca respondeu: Deixa comigo que eu vou “providenciar” uma caipirinha pra nós. Achei melhor não perguntar como…
Durante o dia gastamos muita energia tomando banho de mar e dando um malho nas minas na beira da praia (sem muito sucesso), e no início da noite voltamos para o camping, e nos preparamos para a noite que prometia. Tomamos banho (sim o camping tinha chuveiro com água quente), trocamos de roupa e fomos dar uma banda no centro de Tramandaí, pois o Boca garantiu que iria descolar a tal caipirinha para a gente, e ainda nos convenceu de que a caipa seria o acompanhamento do jantar (sardinha e salsicha). No meio do caminho surgiu a pergunta que não queria calar: – O Boca, como é que tu vai descolara uma caipa se a gente não tem um puto no bolso? Perguntou o Daison.
– A gente tem que usar a imaginação meu… e eu já tenho um plano. Respondeu o Boca. – Vocês não viram uma fruteira que tem bem ali no centro?? A gente passou na frente ontem quando estava indo para a casa do Brian.
– Não. Respondi.
– Não lembro. Respondeu o Daison.
– É uma fruteira bem na esquina, toda cercada de grade… a idéia é a seguinte, vocês dois ficam na frente conversando com dono da fruteira, distraindo a atenção dele, e eu dou a volta pela esquina, enfio o braço pela grade e pego uma garrafa de velho barreiro. É tri fácil tem um monte de garrafa bem pertinho da grade.
Puta que o pariu! Roubar uma garrafa de cachaça para fazer uma caipirinha era o fundo do poço. Pensei.
Mas antes que eu pudesse questionar o plano, até porque a aquela altura eu já estava concordando que a idéia apesar de arriscada era boa, o Daison emendou:
– E o limão? A gente vai tomar cachaça pura?
– Não meu! Respondeu o Boca. – Se não der pra dar um ganho “nos limão”, eu vou fazer uma caipa de pêssego.
– Caipa de pêssego? Perguntei.
– É meu, eu pego aquela lata de pêssego em calda que o Daison trouxe e faço uma caipirinha com ela. Explicou o Boca.
Eu e o Daison nos olhamos desconfiados, e deu para sentir que nenhum de nós nunca tinha ouvido falara da tal “caipirinha de pêssego”.
O plano foi bem sucedido, eu e o Daison entramos na fruteira e ficamos batendo um papo descontraído com o dono do estabelecimento, enquanto isso o Boca executava com perfeição a tarefa de “tomar emprestado”a garrafa de velho barreiro. Quando vimos que o Boca já estava do outro lado da rua, nós nos despedimos do quitandeiro e saímos para encontrar o Boca na outra quadra. Com um sorriso que ia de orelha a orelha o Boca nos mostrou o fruto da aventura, escondido dentro da jaqueta jeans que ele vestia.

Voltamos para o camping para a merecida refeição que nos aguardava. Enquanto o Boca preparava a “caimpirinha de pêssego”, o Daison abriu as latas de salsicha e sardinha e me ofereceu com um sorriso no rosto.
– Aí Perereca, vai nessa!
Olhei para o conteúdo daquelas latas e imediatamente percebi que tínhamos outro problema. A sardinha até que tinha uma aparência “razoável”, mas as salsichas… o Daison tentava pegar uma salsicha que se esfarelava entre o garfo. Na verdade todas as salsichas se esfarelavam, com uma cor esbranquiçada, e um cheiro nada agradável
– Cara, estas salsichas estão podre! Exclamei
– É mesmo alemão isso aí não dá pra comer. Concordou o Boca.
– Que nada ta tri bom! Falou o Daison enchendo a boca com nacos de salsicha esfarelada e esbranqiçada.
– Isso aí vai te fazer mal. Recomendou o Boca
– Eu passo! Falei. – Eu não vou comer este troço podre… me dâ aqui a sardinha que essa eu acho que dá pra encarar… e deixa uns pedaços de pêssego pra sobremesa Boca.
– Fica frio Nando que sobrou um monte de pêssego, não dá pra usar muito senão fica doce demais.
– Eu só vou comer a sardinha e o pêssego. Falei
– Deixa um pouco de sardinha pra mim que eu também não vou comer esta salsicha podre. Falou o Boca com uma expressão de nojo no rosto.
– Vocês são umas bichonas mesmo! Exclamou o Daison com um monte de salsicha “duvidosa”na boca. – Estas salsichas estão tri boa!
– Então fica a vontade e come tudo! Retruquei.
O Daison não se fez de rogado e acabou com as salsichas, deixando eu e Boca brigarmos pela misera latinha de sardinha e por uns poucos pedaços de pêssego.
Durante a “ceia” bebemos a “caipirinha” preparada pelo Boca, que apesar de ter um gosto horrível, desceu redondinha, e em poucos minutos estávamos completamente dominados pelo poder etílico do preparado. Na verdade eu e o Boca estávamos “altos”, e o Daison que acabou misturando a salsicha com a “poção” preparada pelo Boca já estava revirando os olhos e se contorcendo com a mão na barriga, e logo em seguida começou a vomitar initerruptamente. No começo eu e o Boca caimos na risada, pegando o pé dele por não ter ouvido os conselhos dos amigos a respeito da “salsicha maldita”, mas logo depois percebemos que com aquela situação a nossa noite estava comprometida, pois não ia dar para dar uma banda e deixar o Daison convalescendo daquele jeito.
– Viu Alemão? Quem mandou tu comer aquele troço podre? Exclamou o Boca já com ar de irritação.
– Nada a ver! A Salsicha tava tria boa… o que me fez mal foi a tua caipa fudida! Respondeu o Daison em meio a mais uma golfada de vomito.
– Olha o cara Boca… comeu aquele troço em decomposição e ainda bota a culpa na tua caipa que ta tri boa (aquela altura a caipirinha realmente já estava muito boa). Argumentei, defendendo a bebida preparada pelo Boca.
– Olha só a data de validade deste troço… já tá vencida há mais de seis meses, e tu vem botar a culpa na minha caipa.
– Onde é que tu comprou esta salsicha Alemão? Pergutei
– Eu não comprei porra nenhuma. Respondeu o Daison mais uma vez “chamando o hugo”. – Peguei estas latas lá despensa de casa!
– E nem se deu ao trabalho de ver se as porras estavam com o prazo de validade vencido? Indagou o Boca.
– Vai te fudê Boca! Tu tava junto e ajudou a pegar as latas… porque tu não olho o prazo de validade? Retrucou o Daison cada vez mais verde, se segurando entre uma golfada e outra.

Dureza em Tramanda Beach (parte 9)
Eu já estava me finando de rir da situação, não sei se por ver o Daison naquele estado, discutindo com Boca sobre quem era culpado pelas provisões estragadas, ou se por causa do efeito da caipirinha, mas logo caiu a ficha de que se a salsicha estava estragada, a sardinha também deveria estar. Corri para pegar a lata de sardinha para conferir a validade, tentando ler o rótulo com o pouco de lucidez que ainda restava, pois a caipirinha de pêssego já estava começando a surtir um efeito devastador na mente.
– O Boca essa sardinha tá vencida a mais de um mês, será que vai fazer mal pra gente também? Perguntei.
– Acho que não, se fosse pra fazer mal já tinha feito.
Não senti muita firmeza na justificativa do Boca, e talvez por isto e pelo efeito da caipirinha, também comecei a me sentir estranho, e resolvi não arriscar uma saída para a noite de Tramandaí, com medo de que pudesse dar um “revertério”, e com isso pagar o maior mico.
– Galera… eu não vou sair… eu vou ficar aqui na barraca, e vou dormir porque to tri cansado… vou deixar a banda para amanhã… hoje eu não tô muito legal. Falei isto já enrolando a língua, pois naquele momento a caipirinha já tinha já tinha batido direto, e nós três estávamos completamente “dominados pelo álcool”.
– Eu também não vou! Completou o Daison em meio a golfadas de vomito.
– Se vocês não vão eu também não vou… também vou dormir. Disse o Boca, também completamente dominado pelo álcool.
– Eu vou dar um tempo aqui fora e daqui a pouco eu vou dormir também. Falou o Daison, completamente sequelado pela mistura de álcool e salsicha “putrefada”.
Eu e o Boca apagamos, mas acordamos diversas vezes durante a madrugada com os gemidos e golfadas do Daison, que parmaneceu a noite toda se esvaindo em vomito do lado de fora da barraca.
Na manhã seguinte eu e Boca acordamos após o meio dia. Porém o Daison que só havia retornado para o interior da barraca quando o sol já estava alto, permaneceu dormindo até o meio da tarde. Naquele domingo ainda aproveitamos um banho de mar a tarde… o Daison se juntou a nós quando o sol já estava quase se pondo, completamente recuperado da noite de “indisposição alimentar”. A noite ainda consumimos o que havia sobrado da caipira, e finalmente fomos dar um banda na noite de Tramandaí.
Acabou não rolando nada, pois a fome era tanta que nós só pensávamos em voltar para a casa na manhã seguinte. Fomos dormir cedo, vencidos pela fome e pelo álcool que novamente havia tomado conta do nosso corpo.
Na manhã seguinte pegamos o nosso ônibus bem cedo e retornamos para Canoas… exaustos e famintos. Chegando em casa eu já não agüentava mais de fome, e comi tudo o que tinha na geladeira… de barriga cheia, caí na cama e só fui acordar no dia seguinte (acho que o Daison e Boca também).
Aquele fim de semana em Tramandaí foi uma dureza só, mas apesar de tudo, de termos passado o fim semana sem comer nada e nem ninguém, aquela aventura foi muito legal, e até hoje damos boas risadas destas lembranças… é meus amigos, como diz o velho ditado, “existe muito mais coisas entre o céu e a terra do sonha a nossa vã filosofia”.

– Tô nessa! Quando é que a gente vai?
– Agora! Disse o Daison.
– Ta tri! Falei. – Só dá um tempo pra eu arrumar a mochila e vamos nessa, enquanto isso vocês vão pegando a barraca lá nos fundos… (a minha casa tinha um pequeno galpão nos fundos onde era guardada a barraca, junto com um monte de outras bugigangas).

Em poucos minutos eu já estava com a mochila pronta, com algumas camisetas, cuecas, bermudas, etc., e um colchonete enrolado. Então eu fui ajudar os dois a pegar a barraca, que era daquelas tipo “chalé” para até quatro pessoas… na verdade era uma “puta” barraca, cheia de ferros, etc. Para carregar aquela barraca (só a lona) eram necessárias 2 pessoas e mais uma para carregar os ferros… era um “barracão”.

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