Coletânea de Idiotas Destruindo seus Carros e Outros Acidentes

Na coletânea de cima tem uma série de idiotas que destroem seus carros ao tentarem fazer proezas diversas. Um dos mais ridículos é o do cara que sai pela porta, sobe na cabine e logo cai no asfalto. A camioneta se espatifa contra um poste.

Nesta outra sequência tem de tudo: De helicóptero se espatifando na água, até o babaca que não calcula o peso do trailer e perde o controle do carro de ré numa subida. Tem também alguns atropelamentos e batidas de motos. Um motociclista salta pra cair dentro de uma van, e até uma câmera que grava o momento em que o motorista pega no sono e capota o carro. Um comercial alerta também para o perigo de dormir na direção, especialmente se estiver dirigindo uma Kombi…

Na época da Banda Habeas Almas

Já que o Marcelo falou do HABEAS ALMAS, vai aí uma foto prá matar a saudade. Este foi um show no auditório do La Salle (hoje universidade) no centro de Canoas/RS. Final dos anos 80 acho. Da esquerda para direita: Daniel Elói Oliveira (eu) na guitarra, Jorginho (vocal), Alfeu (bateria, ao fundo), Roberto Santamaria (baixo), Marcelo Santos (guitarra), ainda tinha o Sérgio Gomes nos teclados que não aparece na foto.
Na época a banda chegou a ter as músicas “Contra a Solidão”, “Sons da Noite” e “Farol” rodando direto diariamente na FELUSP FM, hoje Pop Rock FM.

Ainda Sobre o Rock Desconcert de Carazinho RS
Muito boa lembrança, Marcelo. Já tinha esquecido de muitos destes detalhes sobre esta nossa ‘ tour’ por Carazinho em 1986.
Prá complementar gostaria de contar o que aconteceu depois que vocês foram embora.
Eu e o Alfeu acordamos atrasados. Corremos até a rodoviária mas o ônibus já tinha partido. E nós com as passagens nas mãos…
Aí pegamos um taxi e fomos atrás do ônibus, pois segundo o taxista era possível alcançá-lo. E de fato conseguimos, o motora emparelhou o taxi ao lado do ônibus enquanto fazíamos sinal para ele parar.
O motorista do ônibus ficava olhando surpreso e não entendia o que queríamos com os braços sacudindo feito uns loucos na janela do taxi, que corria bastante.
Aí abanamos com as passagens e o ônibus finalmente parou. Subimos e descobrimos que os nossos lugares já haviam sido ocupados. Outra viagem de pé no corredor. Depois de algumas horas algumas pessoas desceram e conseguimos finalmente sentar e descansar.
Ainda sobre o show que fizemos, lembro que fui prá frente do palco e uma garota me puxou pela bainha da calça e perguntou (gritando, devido ao volume do som):
— Onde vocês estão hospedados?
Aí eu respondi, meio sem pensar:
— Na casa do Zé Bombeiro!!
A guria ficou meio sem entender nada. E até acho que ela pensou que eu estivesse tirando sarro da cara dela…
Valeu…

1986 – O Ano que Mudou Nossas Vidas

por Marcelo Gonçalves

Mil novecentos e oitenta e seis, ano de mudanças para o Brasil, para mim e para muitos dos meus amigos.
Nova República; nova moeda; o Cruzado; Sarney Presidente; o Rock brazuca tomando conta do País e de uma geração; o Rock gaúcho começando a ocupar seu espaço e o Rock inglês tomando conta do mundo.
Eu, então com 19 anos, vivi muito desta efervescência, apesar deste ano ter sido totalmente atípico para mim, pois prestei o serviço militar obrigatório, isso mesmo, fui milico, réco, durante 1 ano e 26 dias.Apesar de ter acontecido contra a minha vontade, vivi grandes aventuras e fiz amigos para uma vida inteira.
Nesta época, meus amigos e eu, tínhamos uma espécie de Quartel General, para nos encontrarmos, sem agenda, sem compromisso, pintava lá e encontrava um camarada ou vários, para tomar uma ceva gelada, bater um papo e dar uma “formigada nas minas” e também marcar uma banda na night.
O quartel general que me referi anteriormente, era a sorveteria do Seu João velho camarada, da Roselaine, amiga, gente boa e mãe do Casinha, filho do Casão, leia-se Gladimir e o próprio e seu uniforme jaleco amarelo limão cítrico. A sorveteria ficava no seguinte endereço: na “Júlio” quase esquina da Tamoio, ao lado do “X” do Mel e quase na frente da casa da “mina do Daison” leia-se Simone, hoje esposa do Daison, mãe do Alison e dos gêmeos Andrei e Andressa, uma bela família.
A história que vou contar, não me lembro o mês, nem se era dia 10 ou dia 15, me lembro que era o inverno de 1986.
Sexta-feira a noite como de costume estávamos na sorveteria bebendo umas “cevas”, além de mim, Daniel, ele mesmo, Daniel animal, grande parceiro, Jorginho, hoje menino do Rio, Alfeu e Fernando “Bozó”. Nessa época eles formavam a banda de Hard Rock Habeas Almas, orquestrada pelo Daniel e suas composições politicamente corretas. O assunto da mesa era um só, o show que o Habeas Almas faria no sábado junto com a banda ASTAROTH (Banda de Heavy Metal, bastante conhecida nos anos 80 no Estado), na cidade de Carazinho, interior do estado, onde estava nosso amigo João Maurício, passando uma temporada, digamos, para recuperar as energias e reorganizar as idéias.
Acontece que ficamos até às 3 da manhã conversando e bebendo na sorveteria. O ônibus que nos levaria até Carazinho sairia da rodoviária de Porto Alegre às 7 da manhã e de fato saiu e eu o perdi. Tentei abordá-lo na BR-116, junto à Estação Niterói do Trem Surb, meus camaradas que estavam no bus tentaram também, ambos sem sucesso. Fiquei ali parado vendo o bus sumir na BR, sem poder fazer nada, uma grande frustração. Voltei para casa decepcionado!! Tomei um café e uma decisão: vou para Carazinho!!!. Peguei o Trensurb e fui até a Rodoviária em Porto, consegui passagem de ida para o final da tarde, grana curta… vida de milico… mas comprei a passagem!

Só sabia que o show era em Carazinho, mais nada. Embarquei com a cara e a coragem de quando se tem 19 anos, e fui. Chegando lá, já era noite, um frio do car……o, perguntei a uma garota que desembarcou comigo se ela sabia onde era o show, por coincidência ela conhecia o João Maurício, mas não me recordo o nome dela, o namorado veio apanhá-la no rodoviária, o cara super gente-boa, me deu uma carona até o local do show.
De cara, encontrei o João Maurício, logo em seguida, o Daniel, o Jorginho, Alfeu, Sérgio Gomes e a esposa. Acho que tinham feito a passagem de som. Saindo de lá, fomos todos para casa do Zé bombeiro, camarada do João Maurício, “uma figura”. Na casa tinha uma galera muito louca, muito legal e já rolava a “descontração”. A convite do Zé bombeiro, a galera ficou baixada na baia do cara. Depois ‘daquele clima’ deu uma “larica”… Fomos todos, Habeas Almas e seu staff jantar num restaurante por conta da organização do evento, onde fomos apresentados à ala feminina da cidade.
Alimentados, fomos para o show, ceva liberada, rock & roll e mulherada…
Pela primeira vez, vi o Jorginho no palco com a banda, o show matou a pau, do mesmo nível do ASTAROTH. Meus camaradas estavam eufóricos e orgulhosos pelos aplausos do público e ao mesmo tempo aliviados pela estréia do Jorginho como vocalista ter sido um sucesso.
No show conheci uma loira chamada Adriana, também amiga do João Maurício, uma gata, filha de um fazendeiro plantador de arroz de Carazinho. Ficamos conversando e bebendo até o final da festa. Ela estava de carro, coisa rara na época, me convidou para tomar uma saideira, depois me levaria até a baia do Zé bombeiro. De cara aceitei, mas como nada é perfeito “do nada” apareceu o Alfeu pedindo uma carona, pois o Daniel tinha se dado na festa e já tinha saído de carona em outro carro e o Alfeu “ficou de pernada”.
Fomos todos para baia do Zé bombeiro, um frio do C….., chegando lá estavam todos bebendo vinho “de garrafão” e outros climas. Jorginho duro de Fanta, Daniel estava dando um xá-lá-lá numa gata e eu na Adriana também.
Uma hora depois, todos foram dormir exceto Daniel, eu e as “minas”, que estávamos na sala, quando resolvi ir junto com a Adriana pegar mais vinho na cozinha, no caminho para cozinha passamos por um quarto com a porta aberta e aí que me surge a figura do Jorginho, deitado e dormindo na cama em uma posição fetal e tremendo de frio, sem nenhum lençol e nenhum cobertor, quase num quadro de hipotermia. Adriana me olha e diz: – Vamos colocar um cobertor nele! Senão vai morrer de frio!! Quando ela abre o cobertor de lã para cobri-lo, num ímpeto, numa fração de segundo, aquele corpo adormecido e cansado salta da cama quase que por instinto e se põe de pé, numa posição de defesa, movimentando os braços como se fosse “Kwai Chang Caine” – o monge Shaolin do seriado Kung Fu. Quando chamei-o pelo nome ele despertou! Pediu desculpas pelo gesto, pegou o cobertor e voltou a dormir.
Peguei o vinho. Quando voltei para sala com a Adriana, o meu amigo Daniel, já havia se agigantado para cima da “mina” que estava com ele, combinei com a Adriana, que tomaríamos o vinho no quarto, para deixar os dois mais a vontade e nós ficarmos tranqüilos no quarto. Apaguei as luzes e ficamos ali naquele clima “James Taylor”. Quando estávamos passando dos entretantos para os finalmentes, a surpresa, Alfeu acorda e sai acendendo todas as luzes da casa à procura de um remédio. Acabou com o clima, as mulheres, se inibiram, se retraíram e resolveram ir embora para suas casas. O Daniel e eu queríamos “matar” o Alfeu, que naquele momento foi o legítimo, o autêntico “empata-foda”. Naquela madrugada gelada só nos restava dormir, e foi o que fizemos.

No domingo, lá pelo meio dia, a Adriana pintou lá na casa do Zé bombeiro, de motinho – TT125. Fomos dar uma banda até a rodoviária para comprar a passagem de volta. Chegando lá, o susto: Não tinha mais passagem para Porto Alegre. Bateu o terror, pois eu tinha que estar no quartel na segunda às 7 da manhã. Voltei para avisar os guris e tentar uma carona que não rolou.
Resolvi voltar na rodoviária, me identificar como militar e tentar um jeito de voltar, fomos eu e o Jorginho, chegando lá, fui ao gerente da rodoviária e disse: “Sou militar, estou de serviço e tenho prioridade no embarque”, e o Jorginho de pronto falou: “Eu também”. O gerente aceitou o “71”, porém teríamos que ir num bus pinga-pinga, e de “pé”, pois não tinha mais lugares vagos. Aceitamos, uma penitência, “vamos combinar” seis horas de pé num bus pinga-pinga, é para f…. E ainda atrasou. Chegamos a uma hora da manhã na rodoviária de Porto Alegre. Esperamos mais um tempo o outro bus para vir até Niterói. Fui dormir as 3 da manhã, exausto, para levantar às 6, ir para o quartel e tirar 24 horas de guarda.
Mas, valeu!!! Tanto que mais de 20 anos depois estou aqui escrevendo esta história minha e dos meus amigos.
Nunca mais falei com a Adriana. Soube que o Zé bombeiro subiu, virou uma estrela. O João Maurício, encontrei o ano passado. O Alfeu, vejo de vez em quando. O Jorginho, mesmo morando no Rio, o Daniel em Canoas e eu em Porto Alegre sempre estivemos juntos, nestes mais de vinte anos, mais que amigos, irmãos.
Janeiro de 2007 – Faço 40 anos no último dia deste mês, o tempo não pára, mas continuo acreditando naquela música do Apocalipse.
” … amizade, igualdade, coisas de irmão!!! Seja branco ou preto, amarelo ou não… “

Marcelo Gonçalves
publicado em Janeiro 2007

A história da venda das saunas e filtros residenciais

Na foto Kíki e Roberto Carlos Cover

Há alguns anos, numa época em que eu estava desempregado, aceitei o convite do Kíki prá entrar no negócio de saunas residenciais e filtros d’água. Havia uma empresa expondo na Multifeira, em Esteio RS que estava procurando representantes para a região metropolitana de Porto Alegre.
Depois de tudo acertado passamos a ir a campo tentar vender. Visitamos primeiro alguns conhecidos e parentes e conseguimos efetivar algumas vendas, principalmente de filtros d’água que eram mais baratos. O caixa do dia era fechado num boteco do centro de Canoas na base da cervejada.
À medida que sentíamos dificuldade em vender as saunas começamos a aceitar as mais diversas formas de pagamento, sendo que num certo ponto aceitamos até trocas como foi o caso do Gládi (Bode) e o computador TK85 que aceitamos por uma sauna.
Chegamos a bater de porta em porta oferecendo as ditas cujas, mas estava cada vez mais difícil vender.
Lembro que tocávamos as campainhas das luxuosas casas do bairro Jardim do Lago em Canoas RS e o pessoal muitas vezes nem sequer nos atendia. Eu falava pro Kíki que aquela estratégia não iria dar certo. Principalmente por que ele usava um tênis totalmente detonado, com uma costura feita por ele mesmo à mão na parte de cima (embora ele negue isso até hoje dizendo que era um tênis Rainha pintado à mão). Dá no mesmo. Causava uma tremenda má impressão…
Aí tivemos a idéia brilhante de focar as vendas nos motéis.
Chegamos num dos maiores motéis da região e conseguimos conquistar a atenção do dono. Ficamos de fazer uma demonstração do produto.
Como a venda era bastante promissora, e, prevendo a possibilidade de negociarmos várias saunas, o próprio pessoal da empresa para qual trabalhávamos resolveu fazer a demonstração. Veio um gerente, uma assistente de vendas e dois instaladores.
Depois de alguma conversa introdutória, fomos eu, o Kíki, o pessoal da empresa que representávamos e um representante do motel para um quarto ver o aparelho funcionar.
Os dois técnicos foram ao banheiro proceder a instalação da sauna enquanto o nosso ‘gerente’ conversava com o cara do motel. Dê-lhe malho. A assistente no lado dele distribuindo sorrisos, de frente prá parede do quarto onde havia uma TV dependurado ao alto.
Não sei se foi eu ou o Kíki, mas um de nós apertou um botão na cabeceira da cama e a TV ligou. Direto num pornozão.
A cena era bizarra, a assistente olhava prá TV, olhava pros lados constrangida, tentava achar outra posição prá não ficar de frente prá TV mas não dava. Ela tinha que ficar ao lado do gerente. Sair dali poderia representar um certo desrespeito ao cliente e até melar a venda. Resolveu ficar ali mesmo. De vez em quando ela desviava os olhos rapidamente prá TV. Não sei se porque já estava gostando do filme ou se prá se certificar se já havia terminado. Mas não. Na TV as moças da orquestra de flautas estavam recém no primeiro movimento do concerto. E nós ali, contendo o riso e de vez em quando fazendo de conta que estávamos tentando desligar o aparelho.
Aí o tal gerente de vendas se ligou, pegou levemente no braço do cara do motel e enquanto conversava foi levando-o prá fora do quarto. A assistente então se safou.

O ápice da época das saunas foi quando o Kíki engatilhou uma venda a um político da cidade.
Estávamos nos deslocando prá instalar o aparelho, quando encontramos o Alfeu no caminho. Eu falei pro Kíki:
— Pára aí que o Alfeu entende de elétrica, ele pode nos ajudar a instalar a sauna.
— Aí Alfeu, temos que instalar uma sauna tu nos da uma força?
Assim, direto, sem introdução. Enquanto o Alfeu subia no carro fomos explicando do que se tratava.
Não lembro se lhe dissemos que tínhamos ferramentas, ou ele se conseguiu algumas. O fato é que de repente estávamos lá, no banheiro do apartamento do cara instalando a sauna.
A mulher do tal político, eu, o Kíki e o Alfeu dentro do banheiro. O Alfeu dê-lhe furadeira na parede logo acima da banheira.
Aí a mulher perguntou:
— Essa é uma sauna seca né? Não posso estragar as paredes do meu banheiro…
O Kíki falou que sim, o que não correspondia totalmente à verdade. Tanto é que minutos depois começou a cerrar tudo de vapor e a escorrer gotículas de água pelas paredes do banheiro.
Tentando distrair a atenção, ele não parava de falar e de gesticular.
Então, de repente a mulher falou apontando prá um filete de água que escorria do aparelho:
— Aquilo ali é um vazamento?
Escorria água pela parede feito uma vertente, indo da sauna direto prá dentro da banheira.
O meu senso de prudência logo me despertou para o perigo que aquilo representava pois tratava-se de um equipamento ligado em 220 volts.
O Kíki, com a cara de pau tradicional, deu um passo a frente e falou:
— Não, isso aqui a senhora faz o seguinte: pega um pedacinho de papel ..
Então passou a rasgar um pedaço de uma revista e a amassar fazendo uma bolinha de papel que levou com um dos dedos até o ponto de vazamento embaixo da sauna.
— É só colocar aqui… e.. TRRRRRRRRRRRRR…
Tomou um choque que quase ficou grudado no aparelho. Foi coisa de segundos, mas deu um susto em todo mundo, principalmente nele que começou a esfregar o dedo com a ponta tostada enquanto falava:
— Bah, xarope esse lance…
Em seguida, conseguiu convencer a mulher que enviaria um técnico para corrigir o problema, pegou os cheques e fomos embora.
Alguns dias depois quando o cliente sustou os cheques, ele deu mais uma sauna de brinde compensando de certa forma o inconveniente causado

Carnaval em Laguna – Anos 80

CARNAVAL EM LAGUNA

Pois outra viagem inesquecível foi quando fomos eu, o Marcão (Marcos Wallauer) e o Divino (Ângelo Divino) prá curtir o Carnaval em Laguna. A sequência de acontecimentos inusitados já começou na viagem de ida. Eu fui de carona numa carreta. Os dois parceiros conseguiram carona na free-way numa época em que ainda se costumava fazer isso. Hoje se você parar ali prá pedir carona,ou é assaltado ou é preso.
Vou perguntar pro Marcão informações e detalhes de como foi a viagem de ida deles. Depois posto aqui.
De minha parte, fui de caminhão a contragosto do motorista. Ele não tava nem um pouco a fim de dar carona e só o fez porque alguém da empresa que ele trabalhava, que era meu amigo, lhe solicitou que me levasse.
Passei momentos de apreensão naquela carreta carregada de barras de ferro,o cara sentava o sarrafo e cometia imprudências de apavorar. Fazia ultrapassagens múltiplas, e quando a coisa encrespava ele tocava por cima dos carros que estava ultrapassando forçando-os a ir pro acostamento se não quisessem engrossar as estatísticas de trânsito.
Finalmente paramos num posto na entrada de Criciúma que conforme o combinado era até onde eu iria naquela carona. Acho que tanto eu quanto ele demos graças a Deus. Eu pelo medo de acompanhar aquele demente e ele porque nas outras paradas que fizemos bebia só leite. Isso mesmo,reparei que o cara ficava encarando as garrafas de bebida em cada lancheria que parávamos, noentanto não tomou nada porque temia que eu o entregasse na empresa na qual ele trabalhava.
Saí do posto e fui prá estrada tentar uma carona. Depois de algum tempo caminhando no sol, naquele mormaço de verão, nada de carona, eu comecei a ficar bastante desanimado. Naquele fim de mundo, já com fome e ninguém nem sequer fazia menção de parar. Até que a sorte pareceu mudar.
Um cara com um Fiat Fiorino parou subitamente e ofereceu carona. Logo que sentei, depois de ter colocado o violão e a mochila na parte traseira do veículo,percebi que havia alguma coisa errada com aquele cara. Era um sujeito de uns 40 anos, meio alemão, com barba de alguns dias e cabelo desalinhado. Além disso era cheio de tiques e falava sem parar,meneando a cabeça prá os lados como se tivesse que olhar prá todos os espelhos simultaneamente. Pior do que os trejeitos esquisitos era também a tendência a pesar o pé no acelerador. E também adepto das mesmas ultrapassagens suicidas do motorista da carreta que tinha me trazido até ali.
Caiu-me a ficha que o cara tava chapado quando ele falou o seguinte:
— Meu, tu é cabeludo,tu toca uma viola, então tu também fuma um…
Antes que eu falasse qualquer coisa, ele abriu o porta luvas da Fiorino e caiu caixas de comprimidos, ampolas, e outras porcarias que a julgar pela forma como estavam embaladas também eram drogas. O cara puxou um meio tijolo de erva e em segundos,enquanto dirigia em alta velocidade com um dos dedos mindinhos da mão, esmurrugando alguns torrões, e sem parar de olhar pros espelhos, fechou um baseado.
Virou prá mim e perguntou:
— Aí, vai?
Eu disse que não e ele foi um bom trecho fumando o bagulho e costurando entre os demais carros na pista.
Quando chegamos perto da entrada prá Laguna eu falei:
— É aqui.
E o cara não diminuiu a velocidade,se limitou a dizer:
— Não. É mais adiante…
Depois de uns três ou quatro quilômetros ele percebeu que de fato tínhamos passado do ponto de parada:
–Meu, viajei era lá mesmo, tu não te importa de voltar a pé…
–Claro que não. –Respondi.
De fato encarar outra pernada no sol era melhor que me arriscar com aquele maluco.
Andei,andei e logo depois chegava na entrada prá Laguna. Eu sabia que não iria dar prá encarar a pé até o centro da cidade. Então comecei a pedir acarona de novo. Logo adiante encontrei uma blitz policial. Pensei rápido e vi que poderia tirar algum procveito da situação. Um dos carros que estavam parados era um Fiat Prêmio, praticamente zerado, (não vamos nos esquecer que lá se vão alguns anos), e que nem emplacado estava ainda.
Vi que o policial olhava os documentos do carro e fazia perguntas pro motorista. O cara dava explicações e parecia estar preocupado. Eu cheguei,pedi licença ao policial e perguntei pro cara:
— O senhor me consegue uma carona?
O cara não sabia o que responder,pois estava na dúvida se o policial iria o liberar logo.
Então prá minha surpresa, o policial perguntou:
— Tu vai levar ele?
E o cara:
— Vou.
Então eu já fui abrindo a porta, colocando as minhas coisas no banco de trás e me instalando no banco da frente.
Assim que eu me instalei o policial devolveu os papéis pro cara e disse prá ele seguir. Fechou todas. Prá mim pela carona e pro cara do Fiat parece que também pois já tava todo suado e logo depois de arrancar deu um profundo suspiro.
Cheguei na centro. Depois de algumas caminhadas encontreium outro maluco que eu tinha conhecido nas andanças que costumávamos fazer no bairro Bom Fim em Porto Alegre. Se não me falha a memória o nome dele era Luiz. Apesar dele viajar prá caramba era muito boa gente. Me ofereceu até a barraca dele prá dormir, convite que eu recusei porque provavelmente o Divino e o Marcão trariam uma barraca onde ficaríamos.
Acho que foi depois de algumas horas que encontrei os dois caminhando por Laguna. Qual foi a nossa surpresa ao percebermos que nenhum de nós três tínhamos trazido barraca. Na verdade os dois tinham já passado uma noite ali dormindo ao relento num camping gratuíto.
O Marcão conta que quando acordaram de manhã apenas enrolados num cobertor e, diante da surpresa das pessoas das outras barracas em volta, o Divino teria dito:
–Acorda,Marcão, roubaram a nossa barraca!
Deram uma disfarçada e se evadiram do local.

CARNAVAL EM LAGUNA (parte 2)
Logo chegou a noite e o problema de ter onde dormir aumentou de proporção. Principalmente no meu caso pois o cansaço da viagem tinha me deixado pregado. Prá piorar a situação, não encontrei mais o maluco que tinha oferecido a barraca.
Depois de algumas horas vagando pelos bares de Laguna, e de alguns litros de cerveja, decidimos dormir nas dunas da beira da praia mesmo.
Deitamos na areia os três um do lado do outro. Olhei pro Divino e vi que ele ajeitou até um travesseiro feito de areia, e logo adormeceu com as duas mãos unidas enterradas sob ‘travesseiro’ ecológico.O semblante era de quem estava no conforto da própria cama de casa.
De tão cansado peguei no sono logo e acordei um pouco depois quando uns pingos de chuva começaram a pipocar no meu rosto. Não acreditei…
Começou a cair uns pingos grossos que nos forçou a bater em retirada do hotel relento.
Chegamos num bar e prá conseguir ficar numa mesa, pedimos mais uma cerveja. Enquanto a tomávamos em silêncio, pois o desânimo e o sono tinham tirado a disposição pra qualquer coisa, percebi que algumas pessoas olhavam pra nós, cochichavam entre si e riam.
Comecei a me encabritar. Do que esse pessoal está achando graça? Olhei pra cada um de nós tentando identificar alguma coisa errada e nada.
Foi aí que o Divino se virou pra pedir outra cerveja e eu vi que a orelha dele estava tapada de areia. O cabelo todo dele naquele lado da cabeça na verdade tinha areia, parecia um beduíno recém chegado do saara. Mas o que chamava a atenção mesmo à distância era a orelha completamente cheia de areia.
Avisei o Divino tentando ser o mais discreto possível, se é que aquela situação vexatória permitisse alguma discrição. Ele se inclinou um pouco e bateu com a palma da mão no lado oposto da cabeça fazendo o tampão de areia se despreender da orelha e se acumular sobre a mesa. O montinho de areia que se formou entre os copos foi a gota d’água pra que começássemos a rir convulsivamente…

Nessa parte 3 do Carnaval em Laguna, tenho primeiro que dizer que parece que encontraram o Divino e ele tá trabalhando numa loja de brinquedos no Rua da Praia Shoping, qualquer hora vou ver se encontro a figura.
Tenho que também fazer um flashback e contar a versão que o Marcão (Marcos Wallauer) me enviou para alguns detalhes que eu já havia contado:
“Isso aconteceu foi em meados de 82 ou 83.Lembro de combinarmos de ir pra Laguna no Carnaval, eu, o Daniel, Divino, Jorginho? (acho q tinha mais gente), lembro também de inventarmos isso num xis na Júlio de Castilhos em Niterói (Canoas RS).
Bom, Eu (Marcão) e o Divino fomos pra freeway pedir carona, pois não tínhamos grana pro ônibus (alias tinha é que sobrar grana prás festas). Alguém ficou de levar a barraca (acho q foi o Jorginho). O Divino levou a panela e um liquinho.”
Pausa. Como falei antes, isso explica o porquê das noites ao relento: ninguém levou barraca.
“A primeira carona foi com um velhinho numa kombi cheia de cachorro e galinha, ele tava com o filho pequeno, nos amontoamos junto com os bichos e fomos saboreando um cantil de cachaça com butiá que o Divino tinha preparado. O véio da kombi perguntou o que a gente tava tomando e demos o cantil pra ele, o qual voltou quase vazio.”
A kombi nos largou na entrada de Osório pra Tramandai, desci da kombi já esticando a mão, parou uma marajó. O Divino tava ainda se amarrando conversando com o véio da kombi. Era uma mulher. Tinha mais um louco pedindo carona e ofereci pra ele (coisa de parceria de caroneiro). Fomos, eu, o Divino e esse cara.
Saltamos na entrada de Laguna, o cara e a mulher seguiram viagem.
Entramos num boteco de beira de estrada aonde começamos a “fabricar a turbina” que ia nos acompanhar o carnaval inteiro, era uma mistura de Martini, com Fanta e vodka. Colocamos numa garrafa de água mineral e fomos bicando.
Depois voltamos prá estrada prá pedir carona, desta vez tava mais difícil e ainda faltava uns 12 km ate Laguna. Já era noite quando espichei o braço e o veículo parou… era um ônibus. Seguimos até Laguna. (pagando passagem claro).”
Segue a descrição do Marcão:
“Chegando em Laguna o fervo era grande, ruas cheias de gente, lembro que passei numa rua e veio uma louca e me lascou um beijo na boca. Fomos andando prá ver se achávamos alguém ou um camping. Acabamos parando debaixo de uma parada de ônibus encostado de um rio. Era noite e resolvemos dormir ali na parada mesmo. Foi quando veio um barco e descarregou um monte de gente, o Divino perguntou pra onde ia, o cara do barco disse que ia pra ilha, perguntamos se tinha onde acampar lá, o cara falou que sim, lá fomos nós.
Chegando lá, devido a quantidade de sangue na corrente alcóolica, capotamos na grama se tapando com um lençol.
A manhã chegou e tava cheio de barulho, meti a cara pra fora do lençol e foi aquilo: A gente tava no meio de um monte de barraca com gente pra tudo que é lado.
Ouvi uns comentários de gente nos chamando de doido, sei lá, dei umas cotoveladas no Divino e disse que tava cheio de gente nos olhando, o louco murmurou algo e continuou dormindo. Continuei o acotovelando. Aí ele bota a cara pra fora, olha pros lados e berra:
Roubaram nossa barraca”, bah eu não queria mais nada, rolava de rir.”
Essa parte eu já tinha contado…hehe
“Seguindo a fubanga voltamos pra cidade e fomos num supermercado preparar algo pro rango e mais matéria prima pra nossa bomba caseira.
Quando estávamos saindo, pára um ônibus bem na frente e desce um cabeludo com mochila nas costas e uma viola, era o Daniel….”
Pois eu (Daniel) já tinha até me esquecido que depois da carona eu tinha pego ainda mais um ônibus.
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No dia seguinte ao episódio do Divino com a orelha cheia de areia no bar (veja parte 2) reencontrei o maluco que se dispôs a emprestar a barraca dele.
Falei com o cara, ele topou empresta-la. Fomos até lá e deu um certo desânimo ao ver que a era daquelas pequenas, prá duas pessoas. Ele concordou que revezássemos o seu uso prá dormir.
Depois de tudo acertado, convidamos o cara prá dar uma volta pela cidade. Ele concordou mas disse que antes tinha que fazer um rango.
Ele revirou algumas coisas, pegou um saco de papel,. tirou um pedaço de pão já mordido e deu umas batidas prá derrubar as formigas que compartilhavam com ele da mesma refeição. Depois começou a dar mordidas e a mastigar rapidamente. Guardou o pão novamente no saco prá próxima refeição do dia.
Falamos prá ele que tínhamos trazido fogareiro e comida e que ele poderia comer com a gente enquanto estivéssemos ali.
Aí o cara me saiu com essa pérola:
— Bah, rango de panela faz uma semana que eu não como…
Os olhos da figura brilharam diante da possibilidade de comer finalmente alguma comida de verdade. As formigas é que devem ter ficado tristes por ter perdido o parceiro de pão.
Não sei como é o Carnaval de Laguna atualmente, mas nos anos 80, era realmente muito freqüentada sobretudo por canoenses. Era bastante comum encontrar amigos e conhecidos nas ruas naquele tempo, quem era de Canoas como nós se sentia em casa. Fora isso, nossa cara-de-pau era tamanha que fazíamos amizades por todo canto.
Teve dias que choveu bem na hora de cozinhar, aí o jeito foi pedir prá uma família da barraca ao lado para que nos emprestasse a área prá cozinharmos.
–Divino, conseguimos um lugar prá cozinhar, vamos nessa.
Ele pegou os apetrechos e foi conosco até lá. Montou o fogareiro e começou a pedir alguns ingredientes emprestados prá dona da barraca:
— A senhora teria um pouco de azeite prá me emprestar?
— Sal?
— Um pedaço de cebola?
Não que ele estivesse abusando da boa vontade daquele pessoal, é que se não fosse assim o rango não iria sair mesmo…
Acho que foi nessa mesma noite que estávamos dormindo e de repente sentimos alguém se amontoar por cima. O dono da barraca chegou na madruga prá lá de Marrakesch, e se jogou prá dentro esquecendo completamente que estávamos lá. O jeito foi alguém sair prá fora e dormir o resto da noite na grama ao ar livre

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Carnaval em Laguna – Final

Na verdade, do carnaval em si, da folia nas ruas, nem me lembro direito. Principalmente porque à noite o álcool inundava de tal forma nossos neurônios que sobram apenas flashes de memória dos acontecimentos.
Falando em porre, quem tomou todas mesmo numa daquelas noites foi o João (Betial). Encontramos ele num banheiro público com um rolo de papel higiênico na mão. Depois de algumas horas bebendo e nos divertindo no carnaval de rua vi que o João tinha passado da conta. De uma hora prá outra ele começou a girar no meio da multidão completamente fora de si.
Ele primeiro corria prá trás com a cabeça inclinada prá cima, descrevendo espirais que iam aumentando de diâmetro a medida que ia abrindo uma clareira no meio do povo. A partir de um certo ponto não era mais possível dizer se ele estava acelerando voluntariamente, ou se estava era tentando recuperar o equilíbrio. O fato é que já não se podia fazer mais nada prá ajudá-lo, estava entregue às leis da física.
Um paralelepípedo um pouquinho mais alto na rua pôs fim a agonia fazendo-o se estatelar no chão. Felizmente não se machucou muito, ou pelo menos nem sentiu. Espanou os confetes da roupa e recomeçou a beber.
Lembro que o Jorginho nos encontrou numa noite daquelas e nos aconselhou a irmos embora. O Marcão tinha pegado muito sol, tava num vermelhão de dar dó. Na época filtro solar não era prioridade. Na verdade nem sei se já existia…
A coisa estava braba mesmo. O cansaço das noites mal dormidas naquela barraca prá cachorro, o repetitivo arroz do Divino na improvisada cozinha nas pedras, as caminhadas intermináveis de um lado pro outro, além do trago todo que tomávamos esgotou-nos de um jeito que precipitou a volta prá casa.

Decidimos ir embora. Gastamos o dinheiro que sobrou num almoço substancial, que segundo o Marcão tinha até camarão.
Devido ao grande número de pessoas na cidade só conseguimos passagens para viajar de pé no corredor do ônibus e assim mesmo só até Tubarão.
Sabíamos que iria ser dureza enfrentar algumas horas de pé. Então compramos uma pinga, que se bem me lembro era uma daquelas caipirinhas prontas, de garrafa.
Por sorte logo de saída sobrou um lugar bem na frente e combinamos que revezaríamos prá que todos pudessem descansar.
Enquanto conversávamos de pé no corredor do ônibus íamos enchendo um copo plástico e tomando a bebida. De vez em quando o coletivo passava por um buraco ou mesma fazia alguma manobra brusca e o líquido precioso derramava do copo. Havia um casal de gordinhos sentados em poltronas diretamente expostos à chuva de caipirinha. O gordinho começou a se impacientar e a reclamar. Não sei se por temer alguma confusão ou se ainda existia um restinho de compostura, mas fizemos um esforço e demos uma segurada no trago.
De repente o Divino fala:

–Olha só o motora vai podar três caminhões.

Até achei que ele tava viajando, mas logo vi que era verdade. Os demais passageiros olharam todos prá ver o que estava acontecendo.
Foi aí que, já estando quase vencendo o último caminhão daquela ultrapassagem, surgiu um homem no meio da pista.
Não dava prá frear bruscamente colocando em risco todos os passageiros. O motorista deu uma segurada e pegou o cara de cheio.
O ônibus parou. Todo mundo em choque, só nós que não. Amortecidos pela caipirinha, fomos os primeiros a descer. Juntamos o homem agonizante e colocamos num carro para que o levasse ao hospital.
Alguns minutos depois chegava a polícia rodoviária dizendo que ele tinha morrido e que o ônibus deveria ficar ali mesmo prá perícia. Pronto, nos ferramos. Tivemos que ficar ali por várias horas esperando a chegada de um outro ônibus prá seguir viagem.
O Divino, prá variar, soltava piadinhas o tempo todo:
–Bah, motora tu é Pele Vermelha, tirou o escalpo do cara. – Falou apontando para um buraco com restos de cabelo na frente do ônibus.
Depois dessa tirada de humor negro fora de hora, ele passou a contar como tinha sido nosso carnaval em Laguna. Divertiu o pessoal. Sobretudo quando contou que o arroz que ele fazia era tão grudendo que o cara ficava com dificuldade de pular carnaval à noite nas ruas.
–Ficamos com as cadeiras duras… – Dizia prá gargalhada geral.
Finalmente depois de longa espera retomamos viagem num outro ônibus ainda menor que o primeiro, e terminamos dormindo no corredor uns encostados nos outros. Em Tubarão, baldeação e toca prá Porto Alegre numa indiada que parecia não ter fim. Finalmente chegamos em casa e dormimos uns três dias seguidos prá se recuperar do cansaço.
Apesar de tudo esse carnaval em Laguna foi mais um daqueles momentos mágicos que vão ficar guardados em nossas memórias pelo resto de nossas vidas.

Histórias da Turma – Kíki e a capotagem do Fusca

Eu à esquerda (Daniel Oliveira) e Paulo Henrique (Kíki) , na direita. Em uma festa de aniversário, anos 80.

Kíki, talvez seja o personagem do qual mais histórias se tenha prá contar. Onde ele está, alguma coisa inusitada ou está para acontecer, ou já está acontecendo e ainda não se percebeu.
Certa vez ele havia brigado com a namorada. Pegou o fusca azul celeste de seu pai e foi encher a cara com outro amigo nosso. Tomaram todo o estoque de vinho de um bar no centro. Resolveram voltar para casa e, prá variar o Kíki pisava cada vez mais no acelerador.
Joní gostava também de velocidade, seus assuntos preferidos eram carros e equipamentos de som. Talvez fosse por isso que ele, apesar de estar com medo, não pediu para o Kíki diminuir a velocidade do carro, digo fusca. Limitava-se a segurar-se cada vez mais forte no chamado “puta-merda”. Chegou ao ponto de colocar as duas mãos sobre a referida alça no painel, mas não dizia nada. Kíki, pelo contrário, balbuciava algumas frases desconexas, algumas delas se referindo à sua namorada:

– Aquela desgraçada…Eu não vou querer saber mais dela… Mas eu gosto dela…

Essa última frase ele repetia mais constantemente, e em tom cada vez mais dramático. Joní não falaria definitivamente nada em relação à maneira como Kíki estava dirigindo. Não queria passar por medroso, logo ele que vivia falando em correr de carro.
Dobravam as esquinas cantando pneu até que tomaram a BR. Aí o pé no acelerador pesou…Subiram o viaduto que faz um “S” e, exatamente no meio da descida, o Kíki lascou:
– Joní, sente só o que eu vou fazer…
Ao proferir essa enigmática sentença (que quase foi de morte), ele puxou o freio de mão e torceu a direção pro lado, como se estivesse tentando dar um cavalo-de-pau. A perigosa manobra, naquelas condições, era mais uma irresponsabilidade do que uma tentativa de suicídio. Acho que ele não queria se matar. Ele sempre foi assim mesmo. Quando bebia fazia as maiores proezas com os carros que invariavelmente paravam na oficina.
O fusca trancou as rodas no asfalto, capotou uma vez no ar e mais algumas vezes no chão. Quando ele parou emborcado com as rodas prá cima, o Joní ainda de ponta-cabeça completou:
– Kíki, sente só o que tu fez…

Tiveram muita sorte em não terem sofrido praticamente nada naquele acidente. Algum tempo depois, numa batida contra um poste, um outro amigo que acompanhava o Kíki não teve tanta sorte e quebrou o nariz contra o painel do carro.
Estávamos na janela do clube conversando quando avistamos o fusca azul parar na frente do portão. Kíki estava com a cabeça estranhamente do lado de fora da janela do carro. Parecia que o veículo estava amassado, então descemos e fomos olhar.
Ele estava dirigindo com o teto tão amassado, que era impossível permanecer com a cabeça do lado de dentro. Estava criando coragem ou ganhando tempo para poder formular uma desculpa que justificasse trazer o carro de seu pai para casa daquele jeito. Foi quando seu irmão que estava conosco, lhe perguntou:

— O que aconteceu?
— Um cara me fechou, em cima do viaduto e eu quase morri.

Essa seria a desculpa que ele usaria também mais tarde para o seu pai, quando chegasse em casa com o carro naquele estado.

Turma de Amigos – O início no Colégio São Paulo

Na foto:Vládi, Nando, Daison, Rubens (Braminha), Arlei (Boca)

TURMA – O INÍCIO (1)
Quando paro para tentar lembrar, qual foi o acontecimento que marcou o início de nossa turma de amigos, me encho de dúvidas. Cada um de nós talvez tenha uma versão ou evento diferente para apontar como o ponto de partida, a partir do qual foram sendo agregadas mais e mais amizades nesses já quase 30 anos.
Me orgulho de ter compartilhado com os demais todas essas experiências. De tempos em tempos, confesso, remeto-me mentalmente àqueles tempos de final de ginásio, e, ao lembrar das situações que vivemos, sempre um leve sorriso se insinua em meu rosto. Sempre uma saudade boa passeia de mansinho em minha mente, trazendo um pouco da magia daqueles tempos de colégio, festas e descobertas. A medida que envelheço, percebo que nem todas as pessoas tiveram experiências equivalentes e que talvez sejamos realmente privilegiados por essa amizade tão duradoura.
Não pretendo estabelecer uma sequência muito cronológica ao contar essas lembranças da nossa turma. Isso porque acho mais interessante contá-las, à medida que eu for me lembrando ou sendo lembrado por alguns amigos que as viveram também. Outro motivo é que algumas situações, ainda que separadas por um intervalo de tempo, estão bastante relacionadas entre si.
Ao iniciar essa narrativa tenho que, inevitavelmente, começar por mim. Mesmo porque, os acontecimentos que se sucederam, serão contados aqui sob a minha ótica. Muitos deles, não foram por mim presenciados, mas estão relatados aqui conforme pude apurar nos depoimentos de quem deles participou. Alguns relatos são resultado de uma compilação de versões diferentes, procurando estreitar ao máximo a distância entre o relato e o fato. Acho essa referência necessária, aqui logo no início, porque algumas histórias são um pouco difíceis de se acreditar.
Acho que tudo começou no colégio São Paulo, em meados de 1980, no auge da discoteca. Éramos roqueiros, os outros eram cocotões (leia-se, hoje, caretas). Aos poucos, íamos acrescentando em nosso vocabulário, inúmeros rótulos para definir os outros jovens que não se encaixavam em nossos padrões(que nada mais eram do que as nossas preferências musicais).Nós os chamavamos de punks, cdf´s, “lóquis” e outros tantos adjetivos esquisitos que iam surgindo.
Ao voltar mentalmente ao passado, tentando identificar um início, lembro-me do Vládi, do Mauro, do Paulinho, do Zé Bolt e do Rubens. O Vládi e o Zé estudaram comigo na 5ª série e em algumas outras. O Mauro era irmão do Vládi e o Paulinho eu conheci, através deles, nas festinhas de final de semana. Com o Rubens acho que eu não estudei, mas o conheci no colégio também. Uma das coisas, que certamente aprendi com esses caras, foi a gostar de jogar basquete. Eles tinham essa preferência, enquanto que a grande maioria, inclusive eu, jogavam futebol.

TURMA – O INÍCIO (2)

Nos horários de intervalo, na chamada hora do recreio, as garotas se aglomeravam em torno da quadra de basquete. Até hoje eu não sei se era porque gostavam mais de basquete , ou se era porque em torno da quadra de basquete era o melhor lugar para se sentar e bater um papo. A quadra de basquete ficava mais baixa em relação ao resto do pátio e o desnível que existia funcionava como um enorme banco de concreto, onde as garotas sentavam para saborear seus lanches, conversar e assistir aos jogos.
Apesar de ter tentado, nunca consegui jogar basquete bem. Porém, ao me aproximar daquele grupo do qual alguns eu já conhecia, eu fui descobrindo que tínhamos muitas preferências em comum. Usávamos as mesmas marcas de roupas, curtíamos o mesmo tipo de música, etc. Constituíamos um grupo mais ou menos homogêneo, que se tornava cada vez mais numeroso à medida que o tempo passava.
O conhecimento de rock, com direito a biografia e discografia das bandas, era o principal pré-requisito para fazer parte da turma. A imagem dos discos que levávamos prá lá e prá cá junto aos livros, permanece ainda muito viva em mim. Na nossa relação com as garotas, os discos eram apenas um pretexto. Emprestávamos e tomávamos emprestados, mais com a intenção de estabelecer um vínculo com algumas delas do que meramente apreciar as novidades musicais.– Já escutou aquele que eu te emprestei? Vai me emprestar o disco aquele, então? Eram frases, freqüentemente usadas por nós, para iniciar uma abordagem. E funcionava, pois entre nossas amizades femininas estava o que de melhor o colégio poderia oferecer.
Não sei se éramos bonitos, me inclino a achar que éramos mesmo diferentes. Isso era perceptível na comparação com os outros rapazes. Enquanto eles aceitavam as imposições do ‘poder’ (representado pela direção da escola e alguns professores), nós discutíamos nossos direitos, fazendo-os muitas vezes ceder:

– Rapaz, se tu vier na segunda-feira com esse cabelo comprido, eu vou te mandar de volta prá casa! Disse o coordenador de turmas, ao encontrar um colega nosso no corredor, no final do intervalo.

Convém salientar que o posto de coordenador era o segundo em grau de autoridade no colégio, só ficava abaixo da irmã diretora. Laerte era um senhor de uns quarenta e poucos anos, que apesar de não ser alto, olhava todo mundo como se estivesse de cima, inclinando levemente a cabeça prá trás. Era o representante mais temido do colégio, porém seu ar de ditador por vezes perdia a gravidade. Isso acontecia principalmente quando ele se metia a jogar vôlei com algum alunos e alguns fios de cabelo desciam do topo da cabeça, ficando dependurados ao lado do rosto. A careca reluzia no sol e o pessoal todo procurava esconder o riso. Há que se dizer que depois de alguns anos de convívio no colégio passei a admirá-lo pelo excelente professor de matemática que ele era e a compreender que ele estava apenas desempenhando o papel disciplinador que seu emprego lhe exigia e que no fundo era boa pessoa.

TURMA – O INICIO (3)

– Hã?
– Eu disse que se tu vier na segunda-feira com esse cabelo comprido, eu vou te mandar de volta prá casa! Repetiu Laerte com menos paciência ainda.
– Mas Jesus não usava cabelos compridos também? Retrucou Cebola prontamente.
André, conhecido como Cebola não sei porque, não era o que se pode chamar de aluno disciplinado. Pelo contrário já havia aprontado muitas e o coordenador já estava com ele na mira. Ele tinha os cabelos muito compridos, ao meio das costas. Para completar, ele sempre pedia para as pessoas repetirem o que falavam com um “hã?”. Não sei se era muito disperso ou se era surdo mesmo. O caso é que isso ás vezes impacientava quem quer que estivesse tentando conversar com ele. Junto com André Cebola, andava Laércio, um cara meio quieto, tímido até, mas que seguia à risca os passos do cabeludo.
– Mas, olha só… Querendo se comparar a Jesus… Não tem vergonha? Disse o coordenador, em tom de deboche.
– Muito pelo contrário– respondeu Cebola – quanto mais eu ficar parecido com ele , muito melhor será prá mim, não acha?
A pergunta era difícil para o coordenador responder. Se dissesse que não, ele poderia ter que dar explicações para as freiras ou para os pais dos alunos, tendo em vista que era um colégio religioso. Se, em contrapartida, respondesse que não, admitiria ter perdido a parada pro cabeludo. Ele preferiu não falar mais nada, fez de conta que não era com ele e se foi.
Na verdade Laerte fez um recuo estratégico sem contudo perdoar o rapaz. Algum tempo depois , aproveitando algumas besteiras que o cabeludo aprontou, expulsou ele e seu companheiro Laércio. Tal providência foi bastante comentada no colégio todo, aumentando ainda mais o temor em torno do nome do coordenador.
Uma das coisas com que as freiras mais implicavam era com relação ao uniforme. Camiseta de malha personalizada, azul celeste, e calça de tergal azul-marinho para os rapazes. Às meninas era permitido também a saia azul marinho, não muito curta. De um ano para o outro haviam variações, mas elas orientavam a portaria que adotassem um certo rigor quanto ao traje com que os alunos ingressavam no colégio.
Aquele dia “Seu” Silveira estava no portão, fiscalizando a entrada, como de costume. Geralmente entrávamos pelo portão meio escondidos porque, não era raro, estarmos com o uniforme irregular.

– Não pode entrar de calça Lee! Disse Silveira vindo em nossa direção .
Xii…Algum de nós tinha sido pego, foi o pensamento geral. Olhávamos apreensivos sem contudo deixar de tentar nos esconder, cobrindo a visão do porteiro com os demais alunos que entravam.
Silveira, segurou Nando pelo braço com relativa força, mostrando que o nosso colega, de fato, não iria poder entrar.

A expressão “Calças Lee”, convém explicar aos mais novos, era bastante usada para designar qualquer calças jeans, sobretudo pelas pessoas de mais idade, devido a grande popularidade que haviam tido as calças daquela marca. Apesar disso era difícil agüentar essa generalização. Acho que só aguentávamos porque nos criamos ouvindo nossos pais chamarem calças jeans de ” Brim Coringa”, o que, convenhamos, era bem pior.
Essa não era a única peça do vestuário apelidada de forma esquisita. Ainda persistiam outras como “guides” para designar tênis, por exemplo.

Não obstante serem também de cor azul-marinho, havia um relativo preconceito das freiras em relação às calças de brim. Não sei se porque elas desbotavam, ou mesmo porque davam um certo ar de rebeldia. O fato é que elas proibiram o uso desse tipo de calças nas dependências do colégio numa certa época.
– Mas essa aqui é Levi’s, seu Silveira. Pode ler aqui…
Nando falou aquilo sem muita convicção de que iria colar. Nós ficamos todos na expectativa da reação do porteiro. Por incrível que pareça o velho soltou o braço dele. Forçou um pouco mais os olhos para ver se enxergava melhor a etiqueta, colocando ao mesmo tempo a mão no queixo, no clássico gesto de quem está cheio de dúvidas.
– Ah, bom. Então pode entrar– consentiu finalmente. E, antes que ele nos dissesse qualquer coisa, fizemos questão de ir entrando pelo portão mostrando as etiquetas das calças:
– A minha é US Top, ó…
– A minha é Wrangler…
Quando eu olhei para trás, antes de entrar na sala de aula, eu pude ver o Silveira na guarita, ainda com a mão no queixo, submerso em dúvidas.

TURMA – O INICIO (4)

Não tardou para surgirem convites para festinhas de aniversário, das quais eu tenho ótimas lembranças. Mais tarde descobriríamos ( como vou contar depois), que convite mesmo não era necessário para festa nenhuma. Bastava ir, dar um jeito de entrar e se manter na festa o máximo de tempo possível, antes de ser colocado prá fora.
A primeira festinha da qual me lembro foi o aniversário da Cátia, estavam todos lá. Rolava ao fundo Queen, Led Zeppelin e flertes prá todos os lados. Lembro nitidamente da música ‘All my Love’ do led rodando direto no toca-discos de vinil.

As coisas eram de fato assim, alguns eventos transcorriam com relativa normalidade e eram até tediosos para alguns. Eu, por exemplo, não achei lá essas coisas essa primeira festinha. Os pais da garota sugeriram o fim da festa logo cedo, assim que perceberam o grau de empolgação e de álcool da gurizada. Outros, no entanto, adoraram.
Era dessa forma que transcorriam nossas vidas. Diferentes experiências diantes dos mesmos fatos. Uma ocasião chata, enfadonha para alguns, assumia proporção cinematográfica ao ser relembrada por outros.
Nos reuníamos nos intervalos das aulas, no pátio do colégio, para contar nossas histórias. Invariavelmente, percebíamos que, a forma como contávamos, era tão, ou mais importante, que os fatos em si. Nos divertíamos muito ao sabermos de alguns detalhes a mais sobre o que tinha acontecido na festa anterior. Alguns, na verdade, eram mestres na arte de contar.Faziam trejeitos, acrescentavam elementos que, de tão engraçados, eram difíceis de engolir. Percebia-se, também, que, quanto mais ousados fôssemos em determinada situação, maior a admiração que conquistávamos no grupo.

Talvez , em função disso, é que alguns colegas, na intenção de se auto-afirmarem, se excediam tanto nas ações, quanto na ingestão de bebidas. Quando isso acontecia geralmente dávamos boas gargalhadas relembrando os aconteciementos. Os personagens centrais dessas histórias eram, dependendo do que fizeram, ora admirados, ora provocados com todo o tipo de gozação. No fundo eu suspeito que fazer algo extraordinário como tocar o sino da igreja durante a madrugada (fato que realmente ocorreu durante uma festa) era algo que conferia um certo grau de confiança dos demais. E quem protagonizava essas atitudes o fazia não só pela diversão no momento, mas pelas risadas que daria depois ao contar.