Histórias da Turma – Kíki e a capotagem do Fusca

Eu à esquerda (Daniel Oliveira) e Paulo Henrique (Kíki) , na direita. Em uma festa de aniversário, anos 80.

Kíki, talvez seja o personagem do qual mais histórias se tenha prá contar. Onde ele está, alguma coisa inusitada ou está para acontecer, ou já está acontecendo e ainda não se percebeu.
Certa vez ele havia brigado com a namorada. Pegou o fusca azul celeste de seu pai e foi encher a cara com outro amigo nosso. Tomaram todo o estoque de vinho de um bar no centro. Resolveram voltar para casa e, prá variar o Kíki pisava cada vez mais no acelerador.
Joní gostava também de velocidade, seus assuntos preferidos eram carros e equipamentos de som. Talvez fosse por isso que ele, apesar de estar com medo, não pediu para o Kíki diminuir a velocidade do carro, digo fusca. Limitava-se a segurar-se cada vez mais forte no chamado “puta-merda”. Chegou ao ponto de colocar as duas mãos sobre a referida alça no painel, mas não dizia nada. Kíki, pelo contrário, balbuciava algumas frases desconexas, algumas delas se referindo à sua namorada:

– Aquela desgraçada…Eu não vou querer saber mais dela… Mas eu gosto dela…

Essa última frase ele repetia mais constantemente, e em tom cada vez mais dramático. Joní não falaria definitivamente nada em relação à maneira como Kíki estava dirigindo. Não queria passar por medroso, logo ele que vivia falando em correr de carro.
Dobravam as esquinas cantando pneu até que tomaram a BR. Aí o pé no acelerador pesou…Subiram o viaduto que faz um “S” e, exatamente no meio da descida, o Kíki lascou:
– Joní, sente só o que eu vou fazer…
Ao proferir essa enigmática sentença (que quase foi de morte), ele puxou o freio de mão e torceu a direção pro lado, como se estivesse tentando dar um cavalo-de-pau. A perigosa manobra, naquelas condições, era mais uma irresponsabilidade do que uma tentativa de suicídio. Acho que ele não queria se matar. Ele sempre foi assim mesmo. Quando bebia fazia as maiores proezas com os carros que invariavelmente paravam na oficina.
O fusca trancou as rodas no asfalto, capotou uma vez no ar e mais algumas vezes no chão. Quando ele parou emborcado com as rodas prá cima, o Joní ainda de ponta-cabeça completou:
– Kíki, sente só o que tu fez…

Tiveram muita sorte em não terem sofrido praticamente nada naquele acidente. Algum tempo depois, numa batida contra um poste, um outro amigo que acompanhava o Kíki não teve tanta sorte e quebrou o nariz contra o painel do carro.
Estávamos na janela do clube conversando quando avistamos o fusca azul parar na frente do portão. Kíki estava com a cabeça estranhamente do lado de fora da janela do carro. Parecia que o veículo estava amassado, então descemos e fomos olhar.
Ele estava dirigindo com o teto tão amassado, que era impossível permanecer com a cabeça do lado de dentro. Estava criando coragem ou ganhando tempo para poder formular uma desculpa que justificasse trazer o carro de seu pai para casa daquele jeito. Foi quando seu irmão que estava conosco, lhe perguntou:

— O que aconteceu?
— Um cara me fechou, em cima do viaduto e eu quase morri.

Essa seria a desculpa que ele usaria também mais tarde para o seu pai, quando chegasse em casa com o carro naquele estado.
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